Anuidade alta e milhas em queda: a erosão do cartão LATAM Pass

Ilustração gráfica de um cartão de crédito preto com as marcas LATAM Pass e Itaú, cercado por pontos de milhas se fragmentando e uma seta descendente.

Itaú e LATAM enviaram uma pesquisa a ex-usuários dos cartões Itaú LATAM Pass para entender por que eles abandonaram o produto. O questionário de 11 telas investiga anuidade, benefícios, pontos qualificáveis e para onde os gastos migraram. Não é uma mudança anunciada, mas um sinal claro de que o modelo co-branded premium perdeu tração.

A pesquisa chegou a clientes em novembro de 2026, conforme relatos de quem a recebeu. Entre as alternativas de resposta, aparecem anuidade ou condições de isenção pouco vantajosas, limite de crédito insuficiente, migração para cartões com benefícios melhores e dificuldade para usar os benefícios contratados.

O movimento não surge por acaso. Ele fecha um ano em que o LATAM Pass encareceu justamente na ponta em que o cliente mais sente: o bolso.

O que a pesquisa pergunta aos ex-clientes

O questionário começa pelo motivo central. Ele pede que o participante escolha quais fatores pesaram na decisão de parar de usar o cartão e, em seguida, qual deles teve o maior peso isolado.

Depois, avança para a anuidade. As perguntas verificam se o cliente considerava o valor elevado, se teve dificuldade para conseguir isenção e se encontrou condições melhores em outros produtos.

Há ainda um bloco sobre o limite anual de pontos qualificáveis. A pergunta é direta: antes de parar de usar o cartão, o cliente chegou a atingir o teto de pontos que podia acumular com ele? E, se atingiu, isso contribuiu para o abandono?

Essa é uma das falhas estruturais do modelo. O cliente concentra gastos altos e, ao bater o teto, deixa de acumular pontos que sustentam a categoria elite. Ou seja, o cartão desincentiva exatamente quem mais gasta.

Por fim, a pesquisa quer saber como esses clientes passaram a pagar as compras. As opções incluem outro cartão de crédito, distribuição dos gastos entre vários cartões, outros meios de pagamento e, ainda, quais vantagens foram decisivas na troca.

Quanto custa manter o cartão

O número é o ponto de partida de qualquer decisão. A anuidade do LATAM Pass Itaú Mastercard Black chega a R$ 1.260 por ano, segundo informações divulgadas sobre o produto.

Nesse patamar, o cartão precisa entregar benefícios proporcionais. Todavia, a lista de vantagens tem sido percebida como fraca para o preço cobrado, principalmente por quem compara com alternativas de outros bancos.

O vaivém de janeiro que abalou a confiança

Em janeiro de 2026, clientes receberam um comunicado informando o fim do desconto e da isenção de anuidade por gastos mensais nos cartões co-branded da Azul e da LATAM, entre eles o Azul Itaú Visa Infinite e o LATAM Pass Itaú Mastercard Black.

A regra vigente até então era simples: 50% de desconto na anuidade para quem gastasse a partir de R$ 10 mil por fatura e isenção total para quem chegasse a R$ 20 mil ou mais por mês. O aviso dizia que nenhum valor de gasto seria mais considerado.

Horas depois, o banco enviou um novo e-mail pedindo que os clientes desconsiderassem a comunicação anterior. O Itaú alegou envio equivocado e confirmou que as regras seguem válidas.

O episódio não mudou nenhum contrato. Ainda assim, deixou uma marca: quem concentra gastos no cartão para escapar da anuidade passou a operar com uma dúvida que não existia antes.

O bônus de milhas ficou menor para quem assina o Clube

Para assinantes do Clube LATAM Pass, o acúmulo também piorou. Até janeiro de 2026, esses clientes recebiam um bônus de 70% sobre a pontuação padrão dos gastos no cartão co-branded.

Desde 1º de fevereiro de 2026, o percentual caiu para 50%. Em outras palavras, o cliente paga a mesma assinatura e acumula menos milhas por dólar gasto. A combinação com a anuidade cheia reduz a atratividade do produto de forma direta.

A tabela fixa sobe 20% em 23 de novembro

O terceiro golpe vem do lado do resgate. O LATAM Pass vai reajustar em 20% parte dos resgates na tabela fixa com companhias aéreas parceiras a partir de 23 de novembro de 2026.

As regras atuais valem até 22 de novembro de 2026. Algumas combinações mantêm os valores, mas as principais rotas saindo do Brasil foram afetadas.

Destino (origem Brasil)Econômica até 22/11Econômica a partir de 23/11
América Central42.00050.400
América do Norte57.00068.400
Europa80.70096.840
Oceania95.000114.000
África62.00074.400
Oriente Médio121.500145.800

Na executiva, a combinação Brasil–Europa sobe de 201.600 para 241.920 milhas por trecho. São 40.320 milhas extras por passageiro, em cada trecho.

Vale lembrar que a tabela fixa não vale para voos operados pela própria LATAM. Ela serve às companhias parceiras e a emissão é feita pela central de vendas, sujeita a disponibilidade.

O mercado foi na direção oposta

Enquanto o co-branded premium recua, os bancos seguram clientes com isenções. A CAIXA prorrogou a campanha de 1 ano de anuidade grátis para novas contratações feitas até 15 de novembro de 2026.

A lista inclui o CAIXA Ícone Visa Infinite, o cartão mais alto do banco. Nesse caso, além da primeira compra, o cliente precisa atingir R$ 30 mil em gastos até 13 de dezembro de 2026. No Elo Diners Club, a meta é de R$ 15 mil.

Ao mesmo tempo, cartões de banco com pontos transferíveis ganham espaço. Nesse formato, o cliente não fica preso a um único programa e pode escolher onde transferir o saldo, o que reduz o risco de ver a tabela do parceiro encarecer.

Como saber se seu cartão ainda compensa

A conta é simples: soma dos benefícios realmente usados contra o custo total. Anuidade, mais assinatura do clube, menos o que você efetivamente aproveita em milhas e vantagens.

Faça a divisão em três perguntas:

  1. Quantos reais de anuidade você paga por ano? Divida pelo total de milhas geradas em 12 meses. Se o custo por milha ficar acima do que você pagaria comprando milhas em promoção, o cartão está caro.
  2. Que benefícios você usou de fato nos últimos seis meses? Sala VIP, bagagem, upgrade, desconto no shopping. Benefício que não se converte em uso real não entra na conta.
  3. Você bateu o teto de pontos qualificáveis? Se sim, o cartão já deixou de te recompensar pelo volume de gastos.

Se duas das três respostas forem negativas, vale abrir negociação com o banco. Isenção de anuidade, redução de tarifa e upgrade de limite costumam ser negociáveis, ainda que de forma pontual.

Negociar, fazer downgrade ou migrar?

Negociar faz sentido quando você usa os benefícios e tem gasto relevante na fatura. Nesse caso, o pedido de isenção tem argumento.

Downgrade funciona para quem quer manter o vínculo com o programa, mas não sustenta a anuidade da versão Black ou Infinite. As versões de entrada continuam elegíveis a parte dos benefícios do programa.

Migrar é o caminho de quem quer liberdade de transferência. Nesse formato, os pontos vão para o programa que oferecer a melhor promoção no momento, sem depender da tabela de uma única companhia.

O erro que você não deve cometer

Não cancele o cartão com pontos na conta. O cancelamento pode levar à perda do saldo vinculado ao produto, dependendo das regras do programa.

Antes de encerrar, use ou transfira as milhas. Confira a validade, aproveite promoções de transferência bonificada e só depois formalize o cancelamento. Igualmente, verifique se existe saldo em pontos qualificáveis que ainda pode servir para alguma meta de categoria.

Resumo rápido

  • Pesquisa: Itaú e LATAM enviaram questionário de 11 telas a ex-usuários dos cartões Itaú LATAM Pass, em novembro de 2026.
  • Anuidade: o LATAM Pass Itaú Mastercard Black custa R$ 1.260 por ano.
  • Isenção por gastos: 50% de desconto a partir de R$ 10 mil/fatura e isenção total a partir de R$ 20 mil. O Itaú anunciou o fim da regra em janeiro de 2026 e recuou no mesmo dia.
  • Bônus do Clube: caiu de 70% para 50% a partir de 1º/02/2026.
  • Tabela fixa: reajuste de 20% a partir de 23/11/2026 em várias combinações de regiões e cabines.
  • Contraponto: a CAIXA prorrogou a isenção de anuidade no primeiro ano até 15/11/2026, incluindo o Ícone.

O que isso significa

A pesquisa é um sinal, não um anúncio. Não há proposta de mudança, nem cronograma, nem confirmação de que o banco vai rever anuidade ou benefícios.

O que existe é um reconhecimento implícito de que o produto perdeu aderência. Quando um emissor e uma companhia aérea param para perguntar por que o cliente foi embora, o dado já chegou pela porta da frente.

Para o viajante, a leitura prática é outra. O ano de 2026 mostrou que o cartão co-branded premium depende de três variáveis que saíram do controle do cliente: anuidade, bônus de acúmulo e tabela de resgate. Avaliar o produto uma vez por ano deixou de ser suficiente.

Se você tem esse cartão na carteira, o momento de revisar a conta é agora, antes de 23 de novembro. Depois disso, o mesmo saldo de milhas compra menos.

Para acompanhar as mudanças nos programas de fidelidade e as análises que ajudam a decidir onde concentrar seus gastos, siga o Trota Mundos no Instagram: @otrotamundos.


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